O que aprendi trabalhando com crianças?

O universo infantil consegue ser complexo e desafiador, e, ao mesmo tempo, apaixonante. Para quem trabalha com crianças, o encontro com cada uma delas é uma oportunidade de poder desenvolver o que eu dei o nome, quando comecei a entrar em contato com este mundo, de “olhar sensível”. Desde que percebi que havia, a cada nova criança acompanhada de sua família que chegava ao meu consultório, a chance de desenvolver uma sensibilidade sobre o comportamento em relação à comida que cada criança manifestava, mergulhei de cabeça na intenção de procurar aprimorar o meu olhar sobre as situações apresentadas.

Acredito que este exercício tenha me ajudado a treinar o olhar e a conseguir evoluir no meu trabalho com crianças. Logo no início, entendi que cada criança era única e que não adiantaria tentar idealizar um modelo padrão que se adequasse à realidade de todas as crianças e suas famílias. Ou seja, percebi que o caminho era, a cada novo encontro, colocar-me aberta a aprender com a criança e a dinâmica familiar que se desenhava na minha frente. Desta forma, fui vendo os resultados esperados aparecerem. Eram crianças que começavam a “desabrochar” e a se abrirem a um novo universo envolvendo a forma como se alimentavam, até então temido por elas.

Com o decorrer do tempo e a evolução do trabalho, as mães me relatavam que crianças que antes não aceitavam comer determinados alimentos passavam a incorporá-los às suas rotinas alimentares, que receitas novas e ousadas eram aprovadas pelos pequenos, que as próprias crianças passavam a pedir pratos novos, feitos com vegetais que antes eram rejeitados por elas, que estavam mais dispostas a terem uma alimentação mais variada e colorida, que aceitavam provar alimentos com texturas e cheiros que antes as impediam de ir em frente e, que, acima de tudo, começavam a se relacionar melhor com a comida. Ou seja, eu via, na minha frente, crianças literalmente desabrocharem e ganharem confiança para percorrer o caminho que as levaria a um lugar diferente, em que elas ganhariam, com o tempo, autonomia e consciência sobre o seu comportamento alimentar. Assim eu me motivava e a minha empolgação contaminava as famílias, que viam uma porta se abrir para a possibilidade da mudança que elas tanto procuravam.

Durante este processo, em que eu trabalhava junto às famílias, me deparei com um grande desafio. Era uma questão muito delicada e confesso que tive que aprender a lançar mão de um cuidado extra para falar sobre este ponto com as famílias. Porém, não tive medo de abordar o assunto, já que acreditava que era importante para conseguirmos chegar aonde estávamos almejando. Muitos pais, seja pela própria criação, seja pela ideia que têm de modelo de educação infantil, acham que a presença física constante ao lado do seu filho é necessária. Com isso, estão, o tempo todo, procurando falar o que o seu filho deve ou não fazer, estar no mesmo ambiente que a criança quando estão em casa e, até mesmo, “respondendo” a outras pessoas pela criança ainda que a pergunta seja direcionada ao seu filho.

Sem perceber, estes pais, muitas vezes, se tornam extremamente invasivos, não respeitando o limite que a criança precisa para ter o seu espaço e conseguir se sentir tranquila para assumir a responsabilidade sobre a sua vida. Além disso, estes pais costumam ter dificuldade de enxergarem os seus filhos com mais sensibilidade, e, com isso, não percebem que a criança pode precisar de um ambiente sem tanto estímulo criado por pais que estão constantemente dizendo o que o filho deve ou não fazer.

Diante deste comportamento adotado por algumas famílias, crianças mais sensíveis e com maior dificuldade de lidar com ambientes que considera tumultuados, gastam muita energia para apenas se “defenderem” das situações a que são expostas. Tais crianças costumam precisar de um tempo sozinhas, gerenciar o seu próprio ritmo de desempenhar as atividades do cotidiano e de pessoas que consigam respeitá-las com suas características e necessidades.

Durante os atendimentos, começou a ficar claro para mim como tínhamos dificuldade de avançar no tratamento quando situações que envolviam este cenário se apresentavam. Portanto, me empenhei para começar a falar sobre isso com as famílias, pois, desta forma, acreditava que, aos poucos, pudéssemos, juntos, construir as condições que estas crianças precisavam para aceitarem começar a entrar em contato com o seu comportamento alimentar.

Por ser uma questão delicada e, muitas vezes, difícil de ser compreendida pela família, recomendo que os pais se esforcem para abrirem o seu olhar para a possibilidade de o seu filho ser uma criança que precisa ter a convicção que os pais estarão presentes para lhes dar suporte assim que precisarem, mas que, às vezes, a presença física e constante pode não ser o que esta criança precisa para conseguir tomar para si a responsabilidade sobre a sua alimentação.

Portanto, voltamos ao cerne da questão que este livro pretende abordar, na medida em que nos damos conta que precisamos nos empenhar para tentar compreender o que cada criança necessita para evoluir em relação ao seu comportamento alimentar. Enquanto umas necessitarão e se beneficiarão da presença física dos pais, outras se sentirão tolhidas com isso. Cabe, assim, a nós, profissionais e à cada família, a tarefa desafiadora de aplicar o “olhar sensível” sobre a criança que se apresenta à nossa frente para realmente exercitarmos o papel de auxiliadores no processo de melhora de comportamento alimentar.

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