Medo dos alimentos? Minha experiência com crianças com neofobia alimentar!

Durante o tempo que venho trabalhando com o universo infantil, tive a oportunidade de conviver com inúmeras famílias que passam por este problema. Com isso, coloquei uma forte intenção em tentar ajudar estas crianças que sofrem com a dificuldade de colocar alimentos que ainda não conhecem na boca. O desafio de entender porque este medo é tão forte a ponto de paralisar uma criança frente a um alimento desconhecido me levou a um lugar que acredito que possa auxiliar os pais que estão em busca de caminhos para ajudarem os seus filhos a melhorarem o comportamento alimentar.

Crianças que manifestam este medo, têm, muitas vezes, receio do que pode acontecer caso ela coloque o alimento novo na boca. Isso porque, de uma forma ainda inconsciente para elas, não têm a clareza sobre as reações do seu próprio corpo. Assim, são crianças que manifestam uma relação distante com o funcionamento do seu corpo. Ao serem perguntadas sobre questões como frequência com que vai ao banheiro, interferência da forma como se alimentam no funcionamento do seu intestino, influência da quantidade de água que ingerem sobre a maior ou menor dificuldade de exercerem funções fisiológicas como urinar ou defecar, tais crianças parecem não saber construir uma fala que auxilie o profissional a entender melhor como esta criança lida com o seu próprio corpo e o seu consequente funcionamento.

Quando percebi que algumas crianças manifestam uma forte relação entre as dificuldades alimentares como o medo de experimentar alimentos novos, a resistência em entrar em contato com diferentes texturas que fogem do padrão da sua alimentação habitual, a repugnância pela comida com aspectos que ela não considera atrativo, a seletividade causada pelo cheiro que ela julga ser ruim, a falta de interesse por sabores que ela ainda não conhece, a fobia de ter que colocar um pedaço de um alimento na boca proveniente de modos de preparo com os quais ela não tem familiaridade, comecei a tentar ir ao encontro do que poderia me dar maior percepção de como ajudar estas crianças a iniciarem um trabalho de melhora da relação que elas têm com o universo dos alimentos.

Dentro desta proposta, percebi que estas crianças, muitas vezes, têm pouca consciência corporal. Ou seja, elas se assemelham pelo conhecimento superficial do seu próprio corpo. Estão, assim, desconectadas, de como a forma como se alimentam influencia na sua qualidade de vida. Também costumam ser muito reativas quando o assunto é a sua alimentação. Algumas ainda deixam transparecer que tem dificuldade em ter clareza sobre a sua imagem corporal, o que pode ser visto em crianças que não conseguem elaborar um discurso coerente com a sua própria aparência.

Este ponto bastante comum para as crianças com dificuldade em lidar com o seu comportamento alimentar parece ser um caminho para ajuda-las neste processo. Ou seja, na medida em que os pais e profissionais conseguem orientar a criança a entrar em contato mais profundo com a sua consciência corporal, abre-se uma possibilidade para que esta se sinta mais entusiasmada a perceber como a nutrição pode influenciar a percepção que ela tem do seu corpo.

A dúvida de muito pais é: como fazer para ajudar o meu filho a desenvolver a consciência corporal que pode auxiliá-lo no processo de aprendizagem sobre a sua alimentação? Consciências são habilidades que podem ser buscadas, treinadas, melhoradas e expandidas. Tanto no âmbito do conhecimento sobre o corpo como no âmbito do conhecimento sobre a alimentação, podemos, ainda crianças, buscar a evolução destas habilidades. Para ajudar a criança a ganhar uma maior consciência sobre o seu próprio corpo, recomendo que os pais incentivem a prática de exercícios físicos como brincadeiras que coloquem o corpo da criança em movimento, o hábito de beber uma quantidade de água adequada ao funcionamento do seu organismo, o envolvimento com atividades que a façam entrar em contato com o ponto de equilíbrio do seu corpo e suas extremidades como a dança, o contato do corpo com a natureza através de experiências como colocar os pés na areia ou na grama. Atividades que promovam o encontro da criança com a consciência corporal podem ajuda-la a entender que a forma como lida com os alimentos está diretamente relacionada ao entendimento e à aceitação que tem do seu próprio corpo e, desta forma, serem um caminho para auxiliar no processo de criação de uma relação mais saudável com a comida.

Assim, o autoconhecimento sobre o próprio corpo e a maneira como ele funciona nesta fase da vida podem trazer a esta criança a possibilidade de lidar melhor com possíveis questões que envolvem seus sentidos e sua capacidade de autoconhecimento. Com isso, a alimentação pode ser vista como uma maneira de aprender a cuidar do corpo que habita, bem como a entrar em contato com este e suas inúmeras funções. Quando isso acontece, o indivíduo tem a chance de melhorar o seu padrão comportamental na medida em que passa a se conhecer melhor através do desenvolvimento da suas consciências corporal e alimentar.

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